Quinta-feira, Março 24, 2005

Enfrentando Problema

Estavam as duas atrás da casa, sozinhas, junto à bomba d’água e o portão do fundo. A tia a tinha levado para lá para falar escondido.
- Não queria mais se separar do marido, não tinha mais raiva dele. Estavam se encontrando...Mas não queria dizer à família. Tinha vergonha.
A sobrinha sabia, muito bem, que outros adultos tratavam a tia como se ela fosse uma criança como ela. Estava sempre levando pito, porque estava sempre fazendo coisa errada, como se casar com esse marido, por exemplo. Agora estavam todos em polvorosa porque, enfim, com o divórcio, iam se livrar do traste que incomodava a família.
A tia enquanto falava, chorava mansinho de tristeza - queria o marido de volta. Desde pequena nunca soubera se haver com as coisas da vida. Não amadurecera o espírito como amadurecera o corpo.
Então, enquanto ela permanecia oculta no fundo da casa, a sobrinha foi até a família reunida na sala e disse a todos o que a tia queria que todos soubessem.
Depois voltou para junto da tia, onde ficaram quietinhas esperando os ânimos se acalmarem.

Assim Não É Possível

Casara com um homem que gastava mais do que recebia. No início, como pode, tentou controlar os excessos dele com suavidade e inocência. Depois, com o tempo e as repetidas situações, acabou tolerando e, por fim, aderindo a aquelas maneiras perdulárias.
Um dia vinha pela cidade, preocupada com o filho adoentado que puxava pela mão, quando reconheceu, à frente, na calçada, naquele horário sem grande movimento, a dona da boutique onde ela devia bom dinheiro. Comprara várias roupas caras lá e só pagara a primeira prestação. Para evitar um encontro certo, virou-se para a rua paralela à direita. Mas, então, lembrou-se do salão de beleza, onde também devia um corte e uma tintura – era naquela rua.
Voltou para trás, puxando o menino. Contornou uma imensa área de construção para chegar, por cima, fazendo uma grande volta, no lugar onde tinha a consulta médica marcada para o filho. Caminhava procurando as sombras, as vistas baixas, com medo de encontrar entre as pessoas alguém que ela não tivesse pagado o serviço.
Quando voltou para casa estava exausta. Como se o cansaço de toda a caminhada a esmagasse mais do que fisicamente. O que lhe queimava a face era a revelação de toda a corrupção pela qual se desviara, com a qual desonrara o seu simples caminhar pelas ruas da cidade – esgueirando-se como um rato da luz pública.
Era a hora de tomar vergonha na cara.

A Boa Morte

Ele chegou até a escola em que ela trabalhava e mandou chamá-la. Quando ela veio, antes de qualquer palavra, ele puxou um revólver do bolso e atirou nela.
Depois, atirou em si mesmo.
Ela ainda sobreviveu algumas horas.
O médico que a recebeu na sala de urgência, vendo o rombo que o tiro fizera nos seus órgãos e para lhe testar a consciência que, apesar da morte iminente, por vezes lhe voltava plenamente, perguntou para ela:
- Quem atirou em você?
Então, a ela veio a lembrança dele, lívido, apontando a arma e do fogo que explodira. Uma compaixão imensa pelo que fora sua vida com ele. Uma compaixão imensa pelo que não tinha sido possível, pelo que não dera certo.
Mentiu para o médico, negou que soubesse. Não, da boca dela nenhuma perseguição.
E, com a simplicidade que sua razão pura lhe outorgava, pediu que não a deixassem morrer, que tinha dois filhos pequenos, que tinha responsabilidades. Para mais não queria a vida.
Depois, entrou em convulsão fatal.
No entanto, o seu rosto morto – puderam notar os amigos na hora do seu velório - não demonstrava o desespero das últimas horas.
Como se a morte a tivesse surpreendido com uma visão, quente, viva, iluminada, tinha na face gravada risonha e suave expressão.

A Precipitada

Como começava um período de experiência num novo trabalho, deu segmento a idéia de comprar uma televisão. Mas, da loja – comprava em promoção, à prestação – não tinha como levar a televisão para casa. Andava de ônibus.
Pediu então a colega de serviço que tinha um irmão que tinha um carro que a ajudasse a levar a televisão para casa.
Foram com ela, no carro apertado, com a televisão, até o bairro afastado em que morava.
Depois, em casa, ela notou que faltava na sua bolsa uma nota de dez Reais. Lembrou-se que na situação de entrar e sair com a tv do carro, não reparara na sua bolsa. Achou então que a amiga, com a oportunidade que se fizera, roubara sua nota - talvez até combinada com o irmão.
No outro dia, no emprego, já chegou contando como fora roubada.
A colega acusada era antiga funcionária da firma, de vida muito sofrida, quase sem oportunidade de ajudar as pessoas mais pobres que ela. Como os outros, levou um susto com a forma com que fora agradecido o favor que fizera.A diretora da firma achou por bem que a nova funcionária não cumprisse todo o período de experiência. Dispensou-a, sem nem se interessar em como ela se arranjaria com as prestações que assumira na compra da tv.

Sábado, Março 05, 2005

De Boca Cheia

Tenta falar do sobrinho enquanto almoça com a família. Quer contar uma conduta ridícula e pretensiosa dele.
Mas, todas as vezes que começa a falar, algo acontece e não continua. Quando tenta novamente é novamente interrompido ou por um – passe-me o suco, ou por um – antes que me esqueça.
Simplesmente não consegue falar. Há tanto não via o sobrinho, e ele estava tão longe. Não faria grande mal usar a má conduta dele como mau exemplo.
Então, quando há nova deixa e já começa a introdução do assunto, vem-lhe à lembrança a imagem do sobrinho rindo, alegre – tão jovem ainda.
Certo escrúpulo o faz calar a boca.
Melhor para sua língua, saborear o almoço do que se deixar levar por estas falas canalhas.